terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Saga Anussita


Mydyrvh

A Saga Anussita

 A ocupação judaica do interior nordestino decorreu de um lento processo de fuga das garras da inquisição. Se por um lado tinha o aspecto desbravador e pioneiro, por outro, tinha muito a ver com a necessidade de sobrevivência em termos étnico-religiosos. Tal empreitada foi posta à diante de forma fragmentada e gradual. Até o século 17, só um ou outro sertanista se arriscava entrar nestes rincões. Era terra de ninguém, configurando-se em uma circunscrição hostil onde vicejava um cadinho de tribos aborígenes muito arredias à penetração do homem branco. Arriscavam a desbravar esse corredor mortífero, famílias como os Oliveira Ledo, que tinham no sangue, o ímpeto de conquista e desbravamento. A ocupação dos sertões da Paraíba foi confiada a família de Antônio de Oliveira Ledo que conquistou esse direito junto a Casa da Torre, símbolo maior dos Garcia D'Avila, nobres portugueses donos de uma vasta Sesmaria que ia da Bahia até o Maranhão. Na segunda metade do século XVII, pôr volta de 1679, uma expedição, com 60 homens, partiu de Massacará, na Bahia, para explorar o interior paraibano. Chefiada pôr Antônio de Oliveira Ledo, a comitiva era integrada ainda pôr Pascásio de Oliveira Ledo, Theodósio de Oliveira Ledo, Francisco Pereira de Oliveira Ledo, Felipe Rodrigues (filho de Pascásio), e Antônio de Oliveira Ledo Neto(filho de Francisco Pereira). Eles seguiram pelas margens do Rio São Francisco até a altura de Santo Antônio da Glória, onde alcançaram o Rio Pajeu, e logo depois transpuseram a Serra da Baixa Verde, em Triunfo, Pernambuco, conseguindo finalmente ingressar no sertão da Paraíba.Os exploradores chegaram até a confluência dos Rios Piancó e Piranhas, onde hoje se localiza o município de Pombal, mas logo retornaram a Bahia, ficando pôr aqui apenas Theodósio e seus homens que, pôr três anos, fizeram diversas incursões pela área. Pôr volta de 1682, o capitão-mor dos Vales do Piancó e Piranhas, título que lhe foi concedido pelas autoridades da Colônia, viaja para o cariri paraibano.

 Os cariris eram uma nação tapuia que nutria verdadeiro ódio pelo colonizador lusitano. Na época da dominação holandesa, participara decisivamente da invasão batava, configurando-se no braço armado daqueles invasores. Com o fim da ocupação holandesa, caiu em desgraça perante o poderio lusitano, sendo frágil presa nas mãos de bandeirantes como Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso. Ainda assim, num último suspiro, congregam esforços numa malfadada confederação beligerante (Confederação dos Cariris) que impôs severas derrotas ao homem branco. A guerra dos tapuias levou desespero aos sertões da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, que se viram acercados por tribos ferozes e com ímpeto mortífero. Canindé, príncipe de uma tribo cariri, articulou esforços militares com as demais tribos tapuias e irrompeu guerra contra os portugueses. Neste ínterim, é chamado para o campo de batalha o bravo bandeirante Domingos Jorge Velho. A guerra estava desencadeada. As forças indígenas se mostravam audazes, atacando impetuosamente às poucas fazendas de gado que havia até então. A mortandade fora enorme. Pegos desprevenidos, famílias inteiras foram dizimadas pela sanha tapuia, além do morticínio de seus gados. A reação foi imediata e igualmente desproporcional. Jorge Velho acorreu ao socorro do Arraial de Piranhas, que se encontrava cercado e atacado por cariris da pior grei. De certa forma, a chegada de Domingos foi um alívio para os Oliveiras, que se viram livres da morte certa! Daí em diante foram protagonizadas severas batalhas, com significativas perdas para os dois lados. Os coremas eram a facção cariri mais horrenda e sanguinária. Não se apiedava de nada e de ninguém. Viviam na região paraibana conhecida por Piancó (que significa terror). Eram os terroristas de então, fazendo pilhagens e mortes nestas paragens. Essa guerra durou até o aniquilamento completo destes, representando mais um dos tantos massacres perpetrados pelo colonizador lusitano!

 Pacificado o Sertão, era a hora de empreender uma ocupação que desse destino econômico a estas áreas. A pecuária que já vinha transpondo as tangentes do Rio São Francisco chegava cada vez mais próxima destes rincões. Por esta época não havia mais a ameaça insidiosa dos cariris. Ademais, estas terras que não tinham uma predisposição para um manejo agrícola extensivo, eram sem sombra de dúvida, hábil meio a uma economia complementar da açucareira. Singrando a caatinga, levas e levas de gado bovino foram introduzidos nestas áreas semi-áridas. Era a interiorização da colônia brasileira, que se dava termo através do pastoreio. O ciclo do gado provocou uma mudança de paradigma, vez que, sua produção não era voltada ao mercado externo, mas sim, para um consumo interno da colônia em sua integralidade. Fato similar ocorreu com os gaúchos, que desde cedo empreenderam uma economia de complementação às necessidades brasileiras. Porém, voltando ao cerne da questão, tivemos na pecuária um forte pólo de atração de empreendedores a estes interiores. A empresa não demandava muitos custos, nem muita mão de obra. O gado era criado solto nas imensas pastagens, liberando seus proprietários de maiores cuidados. Notadamente, temos no vaqueiro, o aporte principal desta cultura. Era esse o grande gerente das sesmarias (feudos) que se constituíam com notória facilidade. O intercâmbio com o litoral era diminuto, um vez que seus produtos eram entregues ao agreste, e daí, se cambiava aos pólos açucareiros. O povo que aqui se desenvolveu, bem como sua cultura, estava livre dos influxos intelectivos advindos do estrangeiro. Era praticamente um ambiente isolado, só sendo importunado, volta-e -meia, pela presença de mascates mais afoitos. Dava-se margem a um processo de estabilização, onde o fazendeiro, o vaqueiro, os piões e os jagunços formavam as figuras centrais deste universo.

 Neste quadro de pacificação dos sertões, surgiu uma oportunidade ímpar de viabilização do marranismo frente ao recrudescimento inquisitorial. Este seria o fator decisivo a contribuir para uma ocupação israelita em pleno semi-árido. Diante de perseguições desproporcionais, onde a ameaça de delação catalisava mais e mais os temores dos anussim, restava pouco o que se fazer. A necessidade premente de sobreviver foi o estímulo a esta empreitada. Não havia mais condições seguras de permanência dos marranos em terras litorâneas, uma vez que, o catolicismo já estava bem institucionalizado nestas regiões marítimas. Era necessário dar mais um salto, e transpor as matas que recobriam nosso território pátrio. Pois bem, vencendo o litoral e agreste, chegaram nossos ancestrais em terras sertanejas. Esta vasta planície entrecortada por serras e chapadões foi o local de refúgio destes retirantes da fé. A caatinga seria a muralha natural contra os vis dominicanos. O silêncio de outros tempos dava vazão à uma transmissão oral de tradições milenares. Nestas paragens não fazia mais sentido o medo. A segurança era finalmente alcançada à duras penas. Foi nesta paisagem, tão árida e desértica, que nossos ascendentes puderam desfrutar de uma paz tão almejada. Aborígenes não existiam mais. Frades inquisitoriais também não. Só as intempéries climáticas fustigavam nosso povo. Porém, nem mesmo as secas implacáveis seriam capazes de amortecer o instinto de sobrevivência de um povo que a mais de 3 mil e 500 anos mantém idene sua capacidade de adaptabilidade. Foi aqui que se processou a estabilização de uma nação tão duramente perseguida. Mais uma etapa da história estava transposta, deixando à posteridade o senso de sobrevivência – Sarid – dyrv Sobreviventes – Saridim - Mydyrv!


Fonte:
A Voz Marrana
http://avozmarrana.blogspot.com/2009/05/saga-marrana-i_21.html


 

2 comentários:

  1. Belo artigo sobre o desbravamento do Sertão Nordestino e trajetória dos Anussim.

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  2. Todá Rabá Chaver!

    Devagar vamos contando as histórias dos dias passados, enquanto que com nossos atos, escrevemos as histórias dos dias futuros.

    Shalom UL'Hitraot!!!

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